segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A importância do diálogo nas intervenções de restauro



A imagem que vemos acima é do Edifício Sede do Porto da Antuérpia, último projeto concluído de autoria da arquiteta Zaha Hadid.

Esse projeto vem gerando muitas críticas sendo elas: positivas nos sites e revistas especializados e  negativas entre arquitetos que atuam na área da restauração (neste caso em função do anexo se sobrepor ao bem tombado).

Em intervenções de restauro, principalmente quando há novas construções, não se espera que seja um simulacro da construção existente e nem um fundo neutro, mas sim uma intervenção contemporânea que dialogue com a edificação histórica e seu ambiente.

Podemos citar várias intervenções desse tipo que, no meu ver, tiveram sucesso.

Abaixo uma imagem da tão conhecida Pirâmide do Louvre, projeto de autoria do arquiteto I.M. Pei. A estrutura em aço e vidros transparentes localizada no pátio central do museu é apenas a ponta de uma grande intervenção realizada no subsolo onde criou-se um grande hall para um novo acesso do museu, novas galerias, ampliação das instalações além de conectar e ampliar as salas de exposição.


Museu do Louvre e a pirâmide em aço e vidro.
Mas não precisamos ir tão longe. Abaixo imagem do Colégio São Domingos localizado no bairro de Perdizes em São Paulo. De autoria do arquiteto Samuel Kruchin podemos observar o anexo em estrutura metálica vermelha dialogando com o prédio histórico em estrutura enxaimel ao fundo.
"Pintados em vermelho, os dois grandes pórticos encontrariam correspondência na estrutura em madeira do casarão, sem imitá-la; ao contrário, propondo um contraponto entre distintas fronteiras temporais e históricas." Samuel Kruchin - Uma Poética da História, Obra de Restauro.

No caso do projeto do Porto da Antuérpia me fiz a pergunta: Que justificativa caberia para uma intervenção neste nível?

Através de pesquisa descobri que o projeto foi ganhador de um concurso internacional de arquitetura realizado em 2007 sendo o projeto vencedor o de Zaha Hadid. Esse concurso foi realizado em 02 etapas. Na primeira etapa foram selecionados 05 finalistas entre mais de 100 projetos apresentados. Os projetos dos 05 finalistas propunham a mesma solução arquitetônica, onde o novo anexo ficava sobreposto à edificação pré existente. Abaixo imagem do projeto apresentado pelo Consórcio composto pelos escritórios: TV A2O Architecten; Atelier Kempe Thill; Marc & Roba e BEG, todos escritórios Belgas.

projeto finalista do Consórcio de escritórios Belgas para o Porto da Antuérpia
Infelizmente não consegui ter acesso ao edital do concurso. É importante lembrarmos que um edital muitas vezes dá diretrizes que condicionam o partido arquitetônico gerando inclusive muitas propostas similares. Me parece que, no caso do concurso do Porto da Antuérpia, a área de construção solicitada e a área de terreno disponível podem ter gerado a solução do anexo sobreposto ao bem tombado.

Com relação ao projeto vencedor, a idéia não era ser uma intervenção delicada mas sim uma intervenção que relembrasse as máquinas colossais que formam o pano de fundo do porto. A forma geométrica e o revestimento escolhido pretendem remeter à indústria local de diamantes.

Mas ainda ficam as perguntas:

- Seria válido impor um programa e um uso à um bem tombado que prejudique sua autenticidade e ambiência? A resposta é não, por isso que, para projetos em Patrimônio Cultural Edificado, existem os órgãos de preservação que dão diretrizes e aprovam os projetos. No caso brasileiro temos o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional criado em 1937.

- Seria válido apresentar um projeto que não atendesse ao edital do concurso? A resposta é sim. Apesar do risco de desclassificação há alguns casos de projetos vencedores com soluções mais bem resolvidas arquitetonicamente que propunham novas diretrizes fugindo das impostas pelo edital.

Voltando ao projeto do Porto da Antuérpia não se espera que a discussão tenha fim.

Em um curso do CPC/USP - Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo, pude observar que mesmo um projeto premiado pode sim ter suas diretrizes questionadas através de um outro olhar.

* imagens da web

Postado por Cristiane Py

Um comentário:

  1. Ou seja: o antigo como uma latrina em que se assenta o contemporâneo para suas necessidades...

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