segunda-feira, 24 de julho de 2017

Frase inspiradora:

"Quando a arquitetura é vista como um processo contínuo, no qual as teses e antíteses são dialeticamente integradas, ou como um processo em que a história está tão intimamente envolvida quanto a antecipação da história, em que o passado tem o mesmo peso do olhar voltado para o futuro, então o processo de transformação não é apenas o instrumento do design, mas o próprio objeto deste. Ao mesmo tempo, torna-se possível fazer referência à realidade específica de cada lugar individual onde a arquitetura será construída - e portanto, ao genius loci -, e descobrir a poesia do lugar e dar-lhe expressão. Assim, o lugar é usado da melhor maneira possível."*

                     Oswald Matthias Ungers

* em História Crítica da Arquitetura Moderna, Kenneth Frampton, pag. 360.

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Restauração ou Retrofit?

No final do mês passado nosso escritório entregou uma obra de retrofit de 2 conjuntos comerciais em uma edificação da década de 1960 localizada na Av. Paulista. Aproveitando o espaço do blog vamos falar um pouco desse projeto e dessa obra, mas antes é importante distinguirmos a diferença entre restauração de um patrimônio edificado e o retrofit de uma construção antiga.

Em minhas pesquisas pela internet vi várias definições equivocadas sobre o que seria o ato de restaurar. Em muitos sites e blogs a restauração era colocada como um ato que visava o retorno ao estado original da obra, conceito este que à mais de um século já foi descartado. Para não nos estendermos muito nessa questão é importante dizer que a restauração é um ato de cultura e que deve ser pensada e planejada por uma equipe multidisciplinar. Segundo Cesare Brandi:

"a restauração constitui o momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro"

"a restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo"

Já o retrofit, que podemos traduzir como "colocar o antigo em forma", é um termo muito usado na engenharia (tanto mecânica como civil) e tem como função adequar e modernizar as instalações de construções (ou equipamentos) pré existentes extendendo a sua vida útil e principalmente adequando-os as normas técnicas atuais.

No projeto dos conjuntos comerciais contemplamos: instalações novas de elétrica, hidráulica, telefonia, rede e ar condicionado; instalação de infra-estrutura para cadeira odontológica; troca dos caixilhos sendo os novos com tratamento acústico; troca de piso; remanejamento geral do layout visando uma proposta multiuso; instalação de forro e divisórias de gesso acartonado; troca das esquadrias por portas de madeira com 80cm de largura visando o desenho universal; mudança de layout com 2 lavabos sendo que um deles permite o acesso do módulo de 1,20x0,80m para uso de cadeirantes.

Nas imagens abaixo vamos ver o antes e o depois da obra realizada.

O Antes:


instalações elétricas aparentes; ar condicionado de janela não possibilitando abertura, piso de carpete
instalações hidráulicas aparentes com piso elevado
instalações hidráulicas aparentes com piso elevado
quadro geral de elétrica dentro do banheiro

O Depois:






piso de porcelanato, luminárias de Led embutidas no forro de gesso acartonado, vidro superior permitindo luz natural na recepção.

ar condicionado trisplit inverter, tomadas à 40cm do piso.

lavabo que permite o acesso do módulo 0,80x1,20m de usuário de cadeira de rodas


caixilho em aluminio com tratamento acústico

* imagens da autora

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte III

Já havíamos discutido aqui no blog a questão da importância do diálogo nas intervenções de restauro (lembrando que quando falamos de restauro e preservação incluímos também a escala urbana) e para continuarmos o debate trago 2 projetos que, no meu ver, souberam dialogar e valorizar o pré existente inserindo uma arquitetura contemporânea.

Ambos os projetos que vamos falar hoje são de autoria do escritório Foster + Partners que tem entre suas obras mais conhecidas a Swiss Re Tower em Londres.

Carré d'Art


Segue abaixo croqui e imagem do Carré d'Art, museu de arte contemporânea localizado na cidade de Nimes na França.




O interessante nesse projeto é que a nova edificação não é um anexo ou extensão da edificação antiga mas um prédio independente localizado em frente ao templo romano. Neste caso se faz importante respeitar o que chamamos de ambiência ou área envoltória do patrimônio cultural. 

Reparem que, no croqui do projeto, adotou-se um conceito que teve como ponto de partida a edificação antiga sendo ela representada em primeiro plano.


Joslyn Art Museum


Este projeto para ampliação do museu em estilo art deco localizado em Omaha, EUA muito se assemelha ao projeto do Sir John A. MacDonald Building discutido no post A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte II.






Reparem que na proposta para a nova ala do museu não foi utilizada a transparência e ou estrutura diagrid, elementos recorrentes nos projetos da Foster + Partners. O novo anexo adota material  de acabamento semelhante ao existente e apenas a interligação entre o prédio antigo e a nova ala é em vidro. O gabarito do novo prédio também respeita o pré existente.

Observação

Assim como cada intervenção de restauro deve ser analisada caso à caso, as obras já implantadas também deverão ser. Por isso é importante deixar claro que neste post estamos analisando os 2 projetos acima e não o conjunto de obras da Foster + Partners.

Leia também:



*imagens do site: http://www.fosterandpartners.com - acesso em 10-07-2017

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 20 de junho de 2017

Restauro de pinturas parietais - Igreja de São Domingos - Salvador - Nov-2015

Conforme prometemos, hoje continuaremos falando de restauro de pinturas em Patrimônio Cultural Edificado. 

No post anterior falamos do restauro de pinturas em forro de madeira e hoje falaremos do restauro de pinturas parietais.

No caso de restauro em pinturas parietais, o primeiro trabalho à ser executado é a prospecção estratigráfica. Com ela conseguimos localizar as diversas camadas de pintura que foram feitas no decorrer do tempo e então decidir qual será restaurada (lembrando que nem sempre a proposta é voltar à pintura original, mas sim aquela que tiver maior valor histórico, artístico e simbólico).

Definindo a camada de pintura à ser restaurada partimos para o processo de remoção das camadas sobrepostas. Esse processo poderá ser feito com solventes ou remoção mecânica.

No caso da Igreja São Domingos, o processo adotado foi o da remoção mecânica com bisturi conforme imagem abaixo.
remoção mecânica com bisturi das camadas de pinturas sobrepostas.
As demais etapas são similares ao restauro dos painéis de azulejo e restauro de pinturas em forros de madeira.

Após a remoção mecânica das camadas sobrepostas fazemos o nivelamento e depois a reintegração cromática.

processo de nivelamento
processo de nivelamento
processo de reintegração cromática

reintegração cromática - técnica do trattégio
detalhe da técnica do trattégio

restauro finalizado
O pontilhismo e o trattégio são técnicas de reintegração pictórica de forma a criar um diferencial entre a pintura original e a restaurada. A distinguibilidade nas intervenções de restauro é uma das principais diretrizes da teoria da restauração de Cesare Brandi.

"A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.33  

"A integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; [...], a integração deverá ser invisível à distância de que a obra de arte deve ser observada, mas reconhecível de imediato, e sem necessidade de instrumentos especiais, quando se chega a uma visão mais aproximada."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.47

* imagens - arquivo pessoal - visita realizada em nov de 2015
* teoria de Cesare Brandi ler: Teoria da Restauração, Cesare Brandi, Ateliê Editorial, Artes & Ofícios

por Cristiane Py       

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Restauro de pinturas em forro de madeira - Catedral Basílica de Salvador - Nov-2015

Em maio de 2016 fizemos um post sobre o Restauro de Azulejos da Basílica de Salvador. Este post foi um dos mais acessados do blog, perdendo apenas para o post Missão Cumprida e A importância do diálogo nas intervenções de restauro, por isso resolvemos retomar o tema e escrever sobre o restauro das pinturas do forro da Basílica de Salvador que estava sendo executado no mesmo período do restauro dos azulejos (novembro de 2015).

As diretrizes para o restauro de pintura em Patrimônio Edificado são similares as diretrizes de restauro em painéis de azulejo.

Abaixo vemos o restauro da pintura do forro de madeira. Neste caso o forro foi desmontado e o trabalho executado na bancada. Vale lembrar que antes da desmontagem do forro é feito um mapa com a numeração e localização de todas as peças removidas.

Nivelamento em forro de madeira - trabalho com mapeamento, desmonte e execução na bancada.
Nivelamento finalizado. Peças aguardando a reintegração cromática.
A reintegração cromática seguiu as diretrizes da teoria da restauração de Cesare Brandi. 

"A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.33  

"A integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; [...], a integração deverá ser invisível à distância de que a obra de arte deve ser observada, mas reconhecível de imediato, e sem necessidade de instrumentos especiais, quando se chega a uma visão mais aproximada."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.47 


Restauro do forro quase finalizado.
Semana que vem vamos falar sobre o restauro das pinturas parietais da Igreja de São Domingos também localizada no Pelourinho em Salvador-BA.

* imagens - arquivo pessoal - visita realizada em nov de 2015
* teoria de Cesare Brandi ler: Teoria da Restauração, Cesare Brandi, Ateliê Editorial, Artes & Ofícios




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Curiosidade - Os terraços da Fallingwater revestidos com folhas de ouro.

A Kaufmann House, conhecida como Fallingwater (Casa das Cascatas),  é uma das obras primas projetada pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright em 1935. Localizada sobre uma cascata entre as colinas da Pennsylvania o projeto tem uma estrutura ousada onde os terraços se fundem com a paisagem.

Além de várias publicações e artigos na internet, a casa hoje é um museu aberto para visitação.

O que eu achei muito curioso, e copio aqui para vcs, é um trecho do livro História Crítica da Arquitetura Moderna do Kenneth Frampton falando sobre o projeto. Segue abaixo:

"A eterna ambivalência de Wright diante da técnica nunca se expressou mais singularmente do que nessa casa, pois embora o concreto tenha tornado o projeto exequível, ele ainda o via como um material ilegítimo - como um "conglomerado" que tinha "pouca qualidade em si". Sua intenção inicial era revestir o concreto da Falling Water com folhas de ouro, um gesto kitsch do qual foi dissuadido pela discrição do cliente. Finalmente, ele resolveu fazer o acabamento da superfície com tinta cor damasco!"
Kenneth Frampton
História Crítica da Arquitetura Moderna, quarta edição, ed. Martins Fontes - pags 228/229 - grifo meu

Fica registrado aqui a primeira curiosidade do blog!

*para mais informações sobre a Fallingwater acesse: http://www.fallingwater.org
*imagens da web - acesso em 05-2016

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ICOMOS Brasil - Simpósio Científico 2017


Semana passada aconteceu em Belo Horizonte-MG o Simpósio Científico do ICOMOS-BRASIL.

O Conselho Internacional de Monumentos e Sítios -  ICOMOS - "é uma organização não governamental associada à UNESCO com a missão de promover a conservação, a proteção, o uso e a valorização de monumentos, centros e sítios. O ICOMOS é o organismo consultor do Comitê Mundial para a Implementação da Convenção do Patrimônio Mundial da UNESCO."


Os temas principais discutidos no simpósio através de palestras, mesas redondas e conferências, foram:


- Reconstrução pós desastre: Perspectivas.
- Patrimônio Cultural no Brasil hoje.
- Reconstrução e musealização do território.

e dentro desses temas vários assuntos foram abordados. Entre eles:

- O caso do subdistrito de Bento Rodrigues-MG destruído pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco em 2015. A declaração de significância está sendo preparada e uma nova cidade está sendo planejada. As ruínas de Bento Rodrigues estuda-se ser mantida, similar a cidade de Oradour-Sur-Glane citada nesse blog no post Uma questão em debate de 29 de agosto de 2016.

- Escudo Azul -"O Escudo Azul é um organismo internacional que funciona como uma espécie de Cruz Vermelha, que congrega pessoas para trabalharem voluntariamente quando existe uma situação de risco ao patrimônio cultural. A ação desse organismo se concretiza na elaboração de planos de emergência e de resgate, na avaliação de riscos e em ações de prevenção implementadas dentro de cada instituição que faz parte do Comitê."

- Turismo Cultural

- Teoria contemporânea da restauração - onde discutiu-se: a mudança de paradigma; a questão do valor simbólico dos bens culturais com ênfase nos sujeitos e não nos objetos; a Carta de Burra; a superação do fetiche material e a importância do sentimento espiritual. Durante os debates foi exposto que a reconstrução não é vetada mas que seu significado é alterado.

- Arquitetura vernácula

- Carta de Juiz de Fora

- Carta de São Paulo

- Museu do Território em Camboja, localizado próximo ao Templo Hindu de Preah Vihear. Um museu que envolveu a população local, que privilegiou a informação visual (em função do alto índice de analfabetismo da região), que valorizou a ligação entre o templo e a paisagem e que resgatou as técnicas tradicionais.

- Patrimônio militar no Brasil. Patrimônio que foi candidato em 2015 (como conjunto de fortificações) para Patrimônio da Humanidade;  a importância de todo o processo para a candidatura; a gestão compartilhada com participação da população e a acessibilidade.

Para concluir posso dizer que foram 3 dias de palestras, conferências e debates que ajudaram a enriquecer o conhecimento de todos os participantes na questão do Patrimônio Cultural.


*imagens da autora e da web - acesso em 05-2017

Postado por Cristiane Py